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Pediram-me para escrever umas palavrinhas
acerca do Cineclube de Tavira. Para constar da primeira página do
site que estamos a criar, disseram-me, piscando o olho à perspectiva
de dar a conhecer este trabalho ao mundo. Ou só porque as luzes
tinham acabado de se acender. Estava no fim mais uma sessão. Desta
vez, Pollock, de Ed Harris. Enquanto nos dirigíamos para a rua,
à procura de um café que nos aquecesse a alma (o corpo não se queixa
ainda, é Setembro) eu ia pensando na dificuldade do que me pediam.
Escrever um texto introdutório à actividade do Cineclube de Tavira.
Hmm. Miragem de gaivotas e tempestades. Não o texto introdutório,
mas um texto introdutório isento e rigoroso e espartano acerca de
algo que, afinal, tem vindo a preencher os meus serões de Quinta-feira,
e, por extensão, toda a semana, seja a recordar o filme que passou,
seja na expectativa do próximo. Pensei desistir. Mas depois lembrei-me
dos pequenos rituais que compõem a Quinta depois do jantar e decidi
fazê-lo. Porque não? Que pequenos rituais? Não são diferentes dos
rituais de qualquer outro cinema. Compra o bilhete, corta o bilhete,
entra na sala, tira o casaco, senta-se e espera, primeiro, pelo
"discurso" do André, segundo, que acabem os traillers, e, por fim,
pelo filme, normalmente europeu. Distraída: não há "discurso" do
André nos outros cinemas, tem razão. Pois é, não há assim tanto
cinema europeu nas outras salas. Ah, também não vai poder comprar
pipocas vindas expressamente dos EUA para o fazer gastar dinheiro
e engordar. Definitivamente o Cineclube de Tavira não é um cinema
qualquer. Tem sempre um bom (bom, mesmo) filme à sua espera, gente
simpática com quem falar de cinema e beber um copo, e é aquele espaço
que, para mim e para quem lá vai há tanto tempo quanto eu, parece
a nossa casa. No outro dia, antes de começar a segunda parte de
New Rose Hotel, de Abel Ferrara, reparei que até o barulho das cortinas
a fechar é bonito.
MG
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